Delação pode revelar destino de dinheiro ligado ao filme ‘Dark Horse’

A Procuradoria-Geral da República (PGR) firmou um acordo de colaboração premiada com o empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. Segundo informações divulgadas pela coluna de Malu Gaspar e Rafael Moraes Moura, do jornal O Globo, o empresário relatou aos investigadores detalhes de pagamentos realizados a pedido do banqueiro Daniel Vorcaro e relacionados ao filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Freixo Júnior é dono da Entre Investimentos e Participações, empresa que teria sido utilizada para intermediar recursos entre Vorcaro e envolvidos na produção do longa. Entre os pagamentos mencionados estão transferências destinadas ao fundo Havengate, sediado no Texas, nos Estados Unidos, administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, que mantém proximidade com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

De acordo com as informações obtidas pela reportagem, o empresário entregou aos investigadores documentos e detalhes sobre remessas internacionais feitas ao Havengate. A expectativa é que o material ajude a esclarecer a movimentação financeira realizada nos Estados Unidos e verificar qual teria sido a destinação final dos recursos.

Uma das linhas de investigação busca descobrir se o dinheiro enviado por Vorcaro foi efetivamente utilizado para financiar “Dark Horse” ou se parte dos valores teria sido direcionada para outras despesas, incluindo possíveis custos relacionados à permanência de Eduardo Bolsonaro no exterior. A hipótese é investigada pela Polícia Federal e pela PGR.

O acordo de Freixo Júnior ainda precisa ser analisado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Ele será responsável por decidir se homologa ou não a colaboração. O empresário não está preso e também não utiliza tornozeleira eletrônica.

Pagamentos ao fundo Havengate

Segundo a reportagem, Freixo Júnior confirmou a realização de diferentes transferências ao fundo norte-americano. Dados revelados anteriormente pelo repórter Breno Pires, da revista piauí, apontam que a Entre Investimentos teria realizado pelo menos sete pagamentos ao Havengate, incluindo uma operação em setembro de 2025.

A existência desse pagamento contraria uma declaração anterior de Flávio Bolsonaro. Em entrevista à GloboNews, o senador havia afirmado que os repasses relacionados ao filme teriam terminado em maio de 2025.

O empresário também teria relatado aos investigadores a realização de entregas de dinheiro em espécie, inclusive transportado em malas. Segundo pessoas familiarizadas com o caso, Freixo Júnior afirmou que não tinha conhecimento sobre a destinação posterior das quantias e não teria citado autoridades com foro privilegiado em seu depoimento.

A defesa do empresário informou que não comentaria o caso por se tratar de uma investigação sob sigilo.

Investigação sobre os custos de “Dark Horse”

O filme voltou ao centro das atenções após a divulgação de mensagens que indicariam tratativas para seu financiamento. Em maio, o The Intercept Brasil publicou informações sobre um suposto acordo de R$ 134 milhões entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a produção.

As mensagens também apontariam que a Entre Investimentos teria sido utilizada para facilitar parte das transferências. Em uma das conversas, Vorcaro orienta que um pagamento fosse realizado por meio da empresa. Posteriormente, Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro ligado ao banqueiro, teria enviado um comprovante referente a uma transferência de US$ 2 milhões para um fundo relacionado à produção do filme.

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi uma operação financeira realizada diretamente pelo Banco Master. Segundo informações divulgadas anteriormente pelo blog, a instituição teria pago R$ 2,329 milhões à Entre Investimentos em 2025.

A prestação de contas da produção também passou a ser questionada. A Go Up Entertainment, responsável pelo filme, contratou uma perícia privada que apontou que aproximadamente 72% dos gastos ocorreram nos Estados Unidos, apesar de as filmagens terem sido realizadas no Brasil.

Os valores gastos principalmente durante a fase de pré-produção também provocaram questionamentos entre profissionais do setor, segundo a reportagem.

Com a nova delação, os investigadores esperam obter mais informações sobre a movimentação financeira do Havengate e ampliar a cooperação com autoridades dos Estados Unidos. O objetivo é esclarecer a origem, o percurso e a utilização dos recursos relacionados ao financiamento de “Dark Horse”.