Produtora do filme de Bolsonaro é alvo de operação por fraude em contrato de R$ 157 milhões com SP

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira a Operação WI-FI para investigar suspeita de fraude em contrato da Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil (ICB). O contrato, firmado com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, chegou a R$ 157,1 milhões após aditivos e tinha como objeto a instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi em periferias da cidade. A apuração é de Fausto Macedo, do Estadão

O ICB é uma ONG controlada por Karina Ferreira da Gama, também sócia da produtora Go UP Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão em endereços da ONG, da produtora, de Karina e da sede da secretaria.

As investigações apontam que pelo menos R$ 26 milhões foram pagos sem a prestação dos serviços contratados. O Tribunal de Contas do Município identificou 20 irregularidades no edital e recomendou a suspensão do contrato, mas a secretaria manteve o vínculo.

O chamamento público que selecionou o ICB contou apenas com a participação do instituto, que não tinha experiência prévia no setor de comunicações. Em contratos anteriores da mesma secretaria, o custo de implantação de cada ponto de Wi-Fi era de R$ 230, enquanto o ICB cobrou R$ 1,8 mil mensais por ponto instalado.

Dos 5 mil pontos previstos, apenas 3,2 mil foram executados. Três aditivos foram celebrados para prorrogar obrigações e justificar atrasos, elevando o valor total pago pela Prefeitura para R$ 83 milhões, com outros R$ 53 milhões reservados no orçamento de 2026.

A polícia também investiga se parte dos recursos públicos foi transferida para a produtora Go UP durante o período de produção do filme Dark Horse. O delegado responsável pelo caso apontou indícios de confusão patrimonial entre o instituto e a produtora e de lavagem de dinheiro por meio de subcontratadas.

O filme teve mais de 90% do orçamento financiado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, preso em novembro de 2025 por fraudes bilionárias. Mensagens encontradas pela Polícia Federal indicam que o senador Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões para o longa-metragem mesmo após a prisão do banqueiro.

O roteiro do filme é assinado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares à ONG em 2024. A Polícia Civil requisitou à Justiça acesso às análises do Coaf sobre as movimentações financeiras do ICB, da Go UP e de Karina.