O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a fazer duras críticas ao Brasil nesta quinta-feira (14), durante coletiva na Casa Branca. Ao comentar a relação comercial entre os dois países, o republicano classificou o Brasil como “um parceiro comercial horrível” e acusou o país de impor “tarifas enormes” contra produtos americanos.
“Eles também nos trataram mal como parceiros comerciais por muitos, muitos anos. Um dos piores, um dos piores países do mundo”, declarou.
Trump afirmou que o Brasil cobra tarifas muito superiores às aplicadas pelos Estados Unidos e que, antes, Washington praticamente não impunha taxas sobre os produtos brasileiros. Segundo ele, o país teria dificultado o comércio, motivo pelo qual passou a ser alvo de tarifas de 50% – o que, na sua avaliação, gerou insatisfação no Brasil, mas “era assim que funcionava”.
O presidente americano contraria fatos já demonstrados pelo governo brasileiro. O Brasil é um dos poucos países do mundo que têm déficit comercial com os EUA. Ou seja, o país compra mais produtos dos americanos o que vende para a maior economia do mundo. Portanto, a relação comercial entre os dois países é vantajosa para os EUA.
Em 2024, o Brasil importou cerca de US$ 44 bilhões em produtos americanos, enquanto exportações brasileiras para os EUA ficaram em torno de US$ 42 bilhões, de acordo com as estatísticas americanas, o que coloca o Brasil entre os 20 principais parceiros comerciais dos EUA.
Defesa de Bolsonaro
O líder norte-americano também fez nova defesa em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a quem chamou de “homem honesto” e vítima de perseguição política.
“Quando eles pegam um presidente e o colocam na prisão ou estão tentando prendê-lo… Acho que o que fizeram é uma execução política. Ele ama o povo brasileiro e lutou muito por essas pessoas. Acho que isso é uma caça às bruxas e acho muito lamentável”, afirmou.
Não é a primeira vez que Trump se manifesta sobre o assunto. Em 15 de julho, ele associou publicamente a aplicação do tarifaço ao julgamento de Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).
Dois dias depois, divulgou uma carta, com timbre da Casa Branca, em que pediu o fim imediato do processo contra o ex-presidente e acusou o sistema de Justiça brasileiro de ser “injusto”.
Segundo a Procuradoria-Geral da República, Bolsonaro liderou uma organização criminosa armada voltada a desacreditar o sistema eleitoral, incitar ataques a instituições democráticas e articular medidas de exceção. O ex-presidente nega as acusações.
Relatório de direitos humanos
As críticas de Trump ao Brasil também ganharam espaço no relatório anual de direitos humanos elaborado pelo Departamento de Estado americano, divulgado na última terça-feira (12). O documento, que abrange 196 países, afirma que a situação dos direitos humanos no Brasil “se deteriorou” e acusa o governo Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes de restringirem a liberdade de expressão e bloquearem perfis de apoiadores de Bolsonaro de forma “desproporcional”.
O texto também critica a detenção de centenas de envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023, apontando que muitos permaneceram presos durante meses sem acusação formal.
Novas sanções
Na manhã da quinta-feira, um dia após o governo dos Estados Unidos anunciar sanções a servidores brasileiros envolvidos na criação do programa Mais Médicos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu com críticas ao bloqueio econômico imposto a Cuba.
As medidas foram justificadas pelo Departamento de Estado, sob gestão de Donald Trump, com a acusação de que os brasileiros teriam atuado em cumplicidade com o regime cubano.
Em discurso, Lula afirmou que a relação do Brasil com Cuba é baseada no respeito e condenou o embargo, que já dura 70 anos, afirmando não haver “nenhuma razão” para mantê-lo. O petista também disse que Trump “não é imperador” e deve “deixar os cubanos viverem em paz”, lembrando que os EUA “fizeram uma guerra e perderam”.
Lula: “Brasil vai procurar outros mercados”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou novamente, na quinta-feira, o tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump a exportações brasileiras aos Estados Unidos. Lula disse, porém, que não vai “ficar chorando, rastejando” e reiterou que vai procurar outros países para abrir novos mercados a produtos brasileiros.
— Se os Estados Unidos não quiserem comprar (produtos do Brasil), não vou ficar chorando, rastejando. Vou procurar outros países para vender os produtos que eu vendo para eles e vamos seguir em frente. Eu aprendi a andar de cabeça erguida (…). Quero que este país seja respeitado. Qualquer nordestino é tão importante quanto qualquer americano. Se eu respeito o povo americano, eles têm que respeitar o povo brasileiro — afirmou Lula durante cerimônia de inauguração de uma fábrica da Hemobras em Goiana, Pernambuco.
Lula ressaltou que as justificativas do tarifaço, tanto as comerciais quanto as políticas, não fazem sentido e voltou a dizer que quer negociar, citando os ministros Geraldo Alckmin (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), Fernando Haddad (Fazenda), Carlos Fávaro (Agricultura) e Mauro Vieira (Relações Exteriores). — Todo o mundo preparado para negociar, a hora que quiserem negociar nós sentamos numa mesa.
“Nós vamos ajudar nossas empresas, não vamos deixar morrerem à míngua. Mas também não vamos ficar chorando porque ele (Estados Unidos) parou de comprar, não. Nós vamos vender para a Índia, a China, para a Rússia, a Alemanha, qualquer lugar. Sabe quantos mercados para os produtos brasileiros nós abrimos em dois anos e meio? Quatrocentos, completou ontem, vamos vender carne e miúdos para as Filipinas, que não compravam nada de nós”, disse Lula.
O presidente tem buscado conversar com líderes de outros países que foram alvo de tarifas. Na semana passada, telefonou a Xi Jinping, da China, e Narendra Modi, da Índia, além de ter recebido telefonema de Vladimir Putin, da Rússia. Todos esses países são membros fundadores, juntamente com o Brasil, do BRICs, grupo que prega o multilateralismo nas relações internacionais.
TRIBUNA DO NORTE
